Escolas brasileiras adotam criacionismo em aulas de ciências
Instituições tradicionais adotam a postura de não separar religião e ciência nas aulas
Simone Iwasso e Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo
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SÃO PAULO - Extremamente polêmicos nos Estados Unidos, onde são defendidos por movimentos religiosos como mais do que apenas explicações baseadas na fé para a criação do mundo, o criacionismo, e seu braço-direito, o design inteligente, também começam a se espalhar pelas escolas confessionais brasileiras - e não apenas no ensino religioso, mas nas aulas de ciências.
Escolas tradicionais religiosas como Mackenzie, Colégio Batista e toda a rede de escolas adventistas do País adotam uma postura de não separar religião e ciência nas aulas, levando aos alunos a explicação cristã sobre a criação do mundo junto com os conceitos da teoria evolucionista. Alguns usam material próprio, que já traz a visão criacionista nos tópicos sobre a origem do homem e do universo. Outros trabalham com livros didáticos que fazem parte da lista do Ministério da Educação (MEC) e acrescentam nessa parte material extra.
"Temos dificuldade em ver fé dissociada de ciência, por isso na nossa entidade, que é confessional, tratamos do evolucionismo com os estudantes nas aulas de ciências, mas entendemos que é preciso também espaço para o contraditório, que é o criacionismo", defende Cleverson Pereira de Almeida, diretor de ensino e desenvolvimento do Mackenzie. "É uma educação que tem um alinhamento com uma cosmovisão cristã e é condizente com a crença das pessoas que trabalham na instituição", diz ele. "Nosso aluno é exposto a informações diversas e contraditórias", acrescenta.
No colégio, que está desenvolvendo um sistema de ensino próprio usado já por cerca de 30 outras escolas, o criacionismo e os primeiros entendimentos sobre a teoria de Darwin começam a ser transmitidos na segunda fase do ensino fundamental, de 5ª a 8ª séries. Por exemplo, na hora de explicar a diversidade de espécies existentes, em vez de dizer que elas são resultados de milhares de anos de um processo de seleção natural, se diz que essa variedade representa a sabedoria e a riqueza de Deus.
No Colégio Batista, em Perdizes (zona oeste), o entendimento é semelhante. "Ensinamos as duas correntes nas aulas de ciências e deixamos claro que os cientistas acreditam na evolução, mas para nós o correto é a explicação criacionista. O importante é que não deixamos o aluno alienado da realidade", afirma Selma Guedes, diretora de papelaria da instituição. "Explicamos que existe a teoria do Big Bang, segundo os cientistas, e que, para nós, existiu uma criação divina", complementa ela, que diz nunca ter recebido reclamações de pais questionando o método.
Toda a polêmica está no fato de esses colégios ensinarem o criacionismo e o design inteligente não como explicações religiosas para o mundo, mas sim como correntes científicas que se contrapõe ao evolucionismo de Darwin. O grupo alinhado com esse pensamento busca falhas na teoria de Darwin para ressaltar as vantagens dessa corrente. Nos Estados Unidos, a polêmica já foi parar na Justiça em alguns Estados. Em um dos casos, decidido em 2005, os tribunais da Pensilvânia decidiram que o design inteligente não era ciência, recolocando Darwin nas escolas.
Por aqui, onde o debate sobre o tema não é tão acirrado, esse tipo de ensino tem despertado dúvidas sobre sua validade e eficácia na preparação dos estudantes - os conteúdos exigidos em concursos e vestibulares sobre ciência são baseados nos consensos atuais das grandes entidades científicas, que defendem a teoria da evolução formulada por Darwin. Nenhum processo seletivo, por exemplo, perguntará aos alunos as explicações do design inteligente para o desenvolvimento das espécies.
Religião à parte
Para especialistas em ensino de ciências ouvidos pelo Estado, o ensino de criacionismo ou design inteligente dentro das aulas de ciências é um equívoco."É completamente inadequado ensinar como uma teoria científica simplesmente porque não é uma teoria científica", afirma Ildeu de Castro Moreira, diretor do departamento de Popularização da Ciência e da Tecnologia do Ministério da Ciência e da Tecnologia.
"Não dá para dizer que se trata de um confronto entre duas teorias porque não é isso. A teoria da evolução pela seleção natural é consolidada, foi aprimorada e confirmada ao longo do século 20, enquanto o criacionismo não se sustenta. Claro que a evolução também tem perguntas em aberto, mas foi consolidada pelos estudos de DNA, pelas evidências fósseis e geológicas". Para ele, não haveria o menor problema em abordar o assunto para mostrar que ele existe, "assim como se fala em alquimia na história da ciência", mas "oferecê-lo como uma alternativa é uma inverdade completa, um desserviço".
É o que pensa também Isaac Roitman, coordenador do grupo de trabalho de educação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "É perfeitamente aceitável que o criacionismo seja apresentado aos alunos como uma corrente que existe, mas está ligada à fé, enquanto a evolução é comprovada cientificamente", afirma. "O principal objetivo da escola é fazer com que o aluno entenda melhor o mundo em que vive. Impor uma crença, uma educação dogmática, não é a melhor forma de conseguir isso", complementa.
Para Nélio Bizzo, especialista em ensino de ciências da USP, não há sentindo em tentar querer provar a existência de Deus cientificamente. "Esses assuntos têm de estar na aula de religião. Ao colocar como se fosse ciência, está se privando o aluno do direito que ele tem de acessar o melhor do patrimônio intelectual da humanidade. E a teoria da evolução figura com destaque nesse patrimônio."
Sem conflito
Já nos cerca de 2 mil colégios católicos, segundo dados da Rede Católica de Educação, não há conflitos entre a fé e a teoria evolucionista. No material de ensino da rede, usado por cerca de cem colégios pelo País, as aulas de ciência trazem a teoria da evolução e explicam o papel de Darwin. " Temos muito claro que a bíblia não é um livro científico e que a Igreja Católica aceita o evolucionismo", explica a pedagoga Rosamaria Callaes de Andrade, uma das responsáveis pelo material didático da rede. "A narrativa da criação do mundo da bíblia é um texto poético e o que ensinamos aos alunos são os entendimentos atuais da ciência", complementa ela.
Bizzo lembra que essa discussão para o catolicismo teve espaço no século 18 e foi solucionada ali mesmo. "Na época algumas pessoas diziam que as marcas do mar no topo das montanhas eram um sinal de que o dilúvio ocorreu. A Inquisição foi lá e resolveu que não era prova de nada. E que o fato de as marcas não terem a ver com o dilúvio não contrariava em nada a Santa Fé."