Cientistas concluem que os judeus têm, assim como afirma a Bíblia, um ancestral em comum
Depois de análises genéticas minuciosas, pesquisadores de universidade norte-americana concluem que os judeus têm, assim como afirma a Bíblia, um ancestral em comum
Paloma Oliveto
| Tina Fineberg/AP Photo - 21/3/08 |
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Pai caminha com as filhas em Nova York: mesmo depois da diáspora, que os levou às Américas, judeus preservaram traços genéticos específicos
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Itsuo Inouye/AP Photo - 4/2/04 |
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Iraquianos celebram a Festa do Sacrifício, em que os judeus lembram a permissão de Deus para que Abraão sacrificasse uma ovelha em vez de seu filho Ismael
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“Abraão tinha 99 anos. O Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: ‘Eu sou o Deus Todo-poderoso. Anda em minha presença e sê íntegro; quero fazer aliança contigo e multiplicarei ao infinito a tua descendência.’ Abraão prostrou-se com o rosto por terra. Deus disse-lhe: ‘Este é o pacto que faço contigo: serás o pai de uma multidão de povos.’” (Gênesis, capítulo 17, versículos 1 a 4)
O primeiro livro da Bíblia conta que, quando Sara, mulher de Abraão, soube da promessa feita por Deus, caiu na gargalhada. “Velha como sou, conhecerei ainda o amor?”, pensou. Mas, conforme a previsão divina, ela deu à luz Isaac, cujo nome significa, em hebraico, “ela vai rir”. Dele, descenderam os representantes das 12 tribos de Israel, que deram origem ao povo judeu.
Uma pesquisa publicada ontem pela revista especializada American Journal of Human Genetics provou que Abraão não é apenas um personagem mitológico. Se tinha esse nome e foi pai aos 100 anos, não se sabe. Mas a ciência está certa de que os judeus têm um ancestral em comum. Por meio de uma minuciosa análise genética, pesquisadores do Langone Medical Center, de Nova York, conseguiram provar que, mesmo com a diáspora de 2,5 mil anos atrás, quando começaram a se dispersar do Reino de Judá, os judeus continuaram compartilhando seus genes.
Além da cultura e da religião, a pesquisa sugere que os judeus podem, de fato, ser considerados um povo coeso. Nem mesmo as miscigenações ocorridas na Europa, na África e, posteriormente, na América, para onde migraram ao longo dos séculos, apagaram do sangue judaico a genética do “pai” Abraão. Estudos anteriores baseados no tipo sanguíneo e na análise sorológica dos judeus já sugeriam que eles se originaram no Oriente Médio, devido à grande similaridade genética nas populações judaicas. “O que mostramos é que, ainda com a diáspora, os grupos de diferentes regiões do mundo ainda têm uma série de características genéticas em comum”, explica Harry Ostrer, principal autor do estudo (leia entrevista ao lado).
Com sua equipe, Ostrer, que é professor de pediatria e patologia, analisou o genoma de 237 judeus dos três principais grupos formados após a diáspora: os ashkenazim, do leste europeu; os sefaradim, da Itália, da Grécia e da Turquia; e os mizrahim, do Irã, do Iraque e da Síria. Só entraram na pesquisa pessoas cujos quatro avós pertenciam à mesma comunidade judaica. Os resultados foram comparados com a análise do DNA de 418 não judeus, provenientes de vários países. Apesar das variações genéticas entre os três grupos judaicos, elas foram bem menores do que as diferenças de judeus e não judeus. “Nós mostramos que a origem judaica pode ser identificada por análises genéticas. A noção de um povo judeu é plausível”, diz Ostrer.
História
A pesquisa do DNA ajuda a contar a história dos judeus. Os dois maiores grupos, do Oriente Médio e da Europa, separaram-se há cerca de 2,5 mil anos, afirmam os cientistas. As populações do sudeste europeu mostram grande proximidade genética quando comparadas aos ashkenazim e aos sefaradim, o que, segundo o estudo, é reflexo da larga escala de europeus da região convertidos ao judaísmo. As análises genéticas mostraram que a miscigenação entre judeus e não judeus, que deu origem ao atual povo judaico europeu, ocorreu por volta de 2 mil anos atrás.
Outro resultado do estudo é que, no grupo sephardim, existe, aparentemente, um componente ancestral norte-africano. Isso pode ter ocorrido devido à mistura do DNA dos mouros e dos judeus na Espanha, entre 711 e 1492, quando os árabes dominaram a Península Ibérica, então habitada também pelos descendentes de Abraão. Os árabes teriam passado para os judeus o gene do norte da África. Já a estrutura do genoma dos ashkenazim indica a expansão ocorrida no século 19, quando as populações judaicas no leste e no oeste europeu cresceram duas vezes mais rápido do que os demais grupos. Esse fato, na história, é conhecido como “o milagre demográfico”.
O primeiro mapeamento genético dos principais grupos judaicos não servirá apenas como curiosidade histórica. De acordo com um dos coautores, Edward Burns, o estudo levará à pesquisa sobre a origem de doenças genéticas. “Os resultados fornecem a ‘impressão digital’ genética de várias subpopulações judaicas, e isso pode nos ajudar a entender a ligação desses genes com problemas cardíacos, câncer e diabetes, entre outras doenças”, afirma Burns.
Três perguntas para - Harry Ostrer, pesquisador do Langone Medical Center, de Nova York
Até agora, a ciência não reconhecia os judeus como um povo?
Sim, reconhecia, mas de forma menos assertiva. Um século atrás, cientistas raciais, incluindo pesquisadores judeus, argumentavam que os judeus eram diferentes de outros grupos da população. Estudos menos sofisticados do que o nosso, datados das décadas de 1970 e 1990, analisaram o tipo sanguíneo e as proteínas sorológicas, e a tendência foi concordar que os judeus são mais similares entre eles do que quando comparados à população não judaica.
O senhor não teme que pessoas mal-intencionadas possam usar suas descobertas para reacender o já ultrapassado conceito de raça, reafirmando o preconceito histórico contra os judeus?
Apenas se elas não entendem nada sobre genética populacional. As diferenças genéticas entre diferentes grupos são realmente muito pequenas. Centenas de grupos já foram estudados até agora, sem esse viés de raça, incluindo os sul-americanos. Nós acabamos de publicar, por exemplo, uma pesquisa sobre os hispânicos que vivem nos Estados Unidos.
Na opinião do senhor, qual é o aspecto mais importante do estudo para a ciência?
O entendimento a respeito da constituição de populações específicas e de como seus genes tomaram forma dentro de suas comunidades locais. Podemos ver uma série de eventos chaves relacionados à diáspora judaica por meio do estudo do genoma dos judeus.
Descendentes ilustres
| Museu de Freud/Divulgação - 6/3/09 |
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Sigmund Freud
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Marlene Bergamo/Folha Imagem - 27/9/1995 |
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Edmond Safra
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AP Photo/File - 15/6/06 |
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Albert Einstein
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Confira algumas personalidades judaicas mudo afora
Woody Allen
Nascido no bairro nova-iorquino do Brooklyn, em 1º de dezembro de 1935, Allan Stewart Konigsberg começou escrevendo roteiros para o rádio. Logo se destacou como comediante, passando a frequentar os estúdios de Hollywood. O cineasta costuma escrever sobre a classe média alta de Nova York, destacando com frequência as neuroses americanas. Muitas vezes, faz brincadeiras com o fato de ser judeu.
Sigmund Freud
Sigismund Schlomo Freud nasceu em 6 de maio de 1856 em Freiberg, na Morávia, então parte do Império Austríaco. A família enfrentou problemas financeiros e mudou-se para Viena quando o futuro psicanalista tinha apenas 4 anos. Lá, ele viveu até 1938, quando foi para a Inglaterra, fugindo do nazismo. O relacionamento de Freud com o judaísmo é considerado ambíguo. Ele germanizou seu nome, era hostil às práticas religiosas e publicou uma obra, Moisés e o Monoteísmo, que desagradou a comunidade dos judeus, ao afirmar que Moisés havia sido um príncipe egípcio. Ao mesmo tempo, tinha orgulho de suas origens e era famoso por contar piadas judaicas.
Edmond Safra
Filho do banqueiro Jacob Safra e neto de um comerciante que transportava ouro pelos desertos em caravanas de camelos, Edmond Safra nasceu em Beirute, no Líbano, em 6 de agosto de 1932. Na infância, estudou em colégios sionistas e foi criado dentro da tradição judaica. Em 1952, a família Safra mudou-se para o Brasil, onde fundou o Banco Safra, o preferido da colônia judaica brasileira. O banqueiro, naturalizado brasileiro, morreu em um incêndio em 1999. Era conhecido pelas obras filantrópicas e pelo financiamento de atividades culturais.
Albert Einstein
O cientista alemão nasceu em Ulm, em 14 de março de 1879 e, entre seus principais feitos, está o desenvolvimento da teoria da relatividade. Nobel de física, Einstein tornou-se impopular em sua pátria, por ser pacifista e judeu. Ele defendia que a Palestina deveria ser um estado onde muçulmanos e judeus poderiam viver em paz, o que não foi bem aceito por nenhum dos lados. Em 1933, com o triunfo de Adolf Hitler, mudou-se para os Estados Unidos. Einstein não professava nenhuma religião e acreditava que a razão, e não a fé, é que fazia o homem aproximar-se de Deus.
Filhos do mesmo pai
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Brasília, sexta-feira, 04 de junho de 2010
